Depois do concerto do Moycano há 2 anos no Tivoli em Lisboa, pensei que não poderia ir a um concerto pior com bilhetes ganhos em passatempos. Mas a vida é feita de surpresas e, desta vez, o banco onde trabalho ofereceu bilhetes para um concerto literário num sítio muito xpto em Estugarda, o Marmorsaal, no Weissenburg Park. Concorri para ganhar bilhetes para a Stuttgart Nacht mas, como já não havia mais, a organizadora propôs-me a Sommernächte e a cavalo dado não se olha o dente. Cada bilhete para o dito evento custa 16 euros e eu ganhei bilhetes para duas pessoas. Maravilha!
Fomos à Abenkasse (sítio onde vende bilhetes antes do espetáculo) e, depois de dizer o meu nome e o nome do banco, o Sr. disse: "ahhh já me lembro, pois o espetáculo a que ninguém queria vir". Upsss, o que será que nos espera... Bem, as senhoras do instituto francês já servem vinho branco e tinto e as mesas estão cheias de Knabbereien (aperitivos) que adoro. A fatia de bolo de ameixa na casa de chá por cima do Marmorsaal não tinha dado para satisfazer o apetite.
Uma professora da Universidade de Tübingen faz uma pequena introdução sobre o poeta Gautier e algum tempo depois seguiram-se as músicas de Berlioz tocadas por um pianista português e acompanhadas por uma cantora lírica que entoava os poemas de Gautier. A senhora cantava divinalmente. Pequenos movimentos na cara eram suficientes para atingir todas as oitavas. So weit so gut ou so far so good ou até aqui tudo bem.
Aqui fica a canção Absence de Berlioz cantada por outra artista.
E finalmente vem a pausa com o seu pot de l'amitié. Andei a perseguir uma senhora com o olhar porque ela tinha um cesto de verga. Seria isso o pot de l'amitié? Deve pôr lá papelinhos e fazer um sorteio. Nada disso! Pot de l'amitié é simplesmente juntar os amigos para beber e petiscar. E que festa, parecia que o intervalo nunca mais acabava e até deu para fazer novas amigas, que partilhavam da opinião que a palestra estava a ser uma seca. E as nossas novas amigas já tinham estado noutros concertos literários e as intervenções não musicais foram sempre mais curtas.
Findo o intervalo tivemos direito a mais duas músicas que nos deram alento para a hora de seca seguinte, agora por uma professora do instituto francês. A senhora lia com mais entoação e até tinha recolhido trechos do diário de Berlioz que lia em Francês e traduzia em alemão. Ficámos a saber o que o Hector andou a fazer pela Alemanha, mas seria necessário mais uma hora?
Um pouco por toda a sala há pessoas de cabeça baixa e alguns já dormem. A senhora à minha frente ameaça levantar-se e o homem a seu lado, pacientemente, coloca a mão sobre a coxa dela como quem diz: "espera mais um pouco querida". Passados 5 minutos a senhora levanta-se num ímpeto de não aguento mais. Ahh como eu a percebo, mas persisto porque ainda temos direito a mais uma música.
Este concerto tem de figurar no meu blog, mas para isso falta a foto. O pianista David está sempre a olhar para mim. Será que já descobriu que sou portuguesa? Sinto-me intimidada a erguer o telemóvel e tirar a foto. Não devia porque descobrimos no final que o senhor é estrábico.
Com o remate de duas músicas acaba a soirée por volta das 23h. O concerto começou às 19h, ou seja, aguentámos 4h de seca. Estamos estoirados e esfomeados. O Moycano em Lisboa foram só 1h30-2h. Estamos sempre a conhecer os novos limites.
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